Limpar Mentalidades

Ouvimos falar muito, por estes dias sem memória, de expressões como “crise de valores” ou “cultura do individualismo”. Mas será mesmo assim? Ouvimos, por exemplo, dizer que os Estados Unidos são um exemplo expoente dessas tendências. Mas será mesmo assim? Digo que não é. Que pelo contrário. Sobretudo nos EUA e nos países anglo-saxónicos. Quem lá viveu percebeu certamente que, não obstante o culto do poder e da liberdade do indivíduo, a sociedade civil não só não se demite das suas responsabilidades, como tem uma capacidade extraordinária para se organizar em causas comunitárias. Regra geral, ao contrário do que acontece no nosso país, não ficam à espera que o estado ou as autarquias resolvam todos os problemas. Há um jardim degradado no bairro? Muito facilmente se unem e metem mãos à obra. A famosa frase de Kennedy, “não perguntes o que teu país pode fazer por ti, mas antes o que tu podes fazer pelo teu país”, continua válida.

Entre nós, a crise do associativismo tradicional tem sido acompanhada da ascensão de um novo tipo de intervenção na vida pública e na comunidade. Entram em crise as colectividades cuja actividade se centrava no lazer e na cultura popular, que não sobrevivem às novas ofertas de entretenimento (televisão, internet, cinemas, etc.). Mas assiste-se, por outro lado, ao crescimento do voluntariado e do associativismo social ou ambiental. A sociedade civil vai respondendo às solicitações do seu tempo – ao crescimento e ao envelhecimento populacional, às crises económicas, ao desemprego, aos desafios ecológicos. Ou seja, não há menos participação nem menos valores, há sim novas formas de participar e de praticar esses valores. Muitas vezes, porém, deixamo-nos levar pela retórica das manchetes dramáticas e pessimistas, ou pelo discurso amargo de alguns velhos do Restelo arvorados em senadores.

Em Portugal, a Democracia é uma criança e ainda há muito a fazer para mobilizar a sociedade civil, para criar uma verdadeira massa crítica de cidadania participativa. Como sempre, mais facilmente nos enfiamos nos cafés a maldizer os políticos do que a fazer algo útil com o nosso tempo livre. No que respeita ao espaço público (jardins, parques, florestas, passeios, praias, etc.), por exemplo, a mentalidade que tem vindo a ser dominante é que este é uma espécie de terra de ninguém, a cargo de uma entidade mais ou menos abstracta, vulgarmente designada por “eles”. Ao passo que nos países anglo-saxónicos o espaço público é de todos.

Mas há sinais bastante positivos e encorajadores, sobretudo das gerações pós-25 de Abril. E o Projeto Limpar Portugal é, sem dúvida, um deles. E um a todos os títulos notável. Por intermédio das novas tecnologias de comunicação, dezenas de milhar de voluntários têm vindo a coordenar-se nos seus concelhos e freguesias, irmanando-se numa causa comum: No dia 20 de Março, Limpar Portugal. Acima de tudo, mostra como a sociedade civil portuguesa consegue sacudir a apatia e partir para a acção, numa impressionante demonstração de mobilização e organização cívica. No dia 20 de Março até pode ficar muito por limpar. Mas quanto a mim o PLP já venceu, já é uma aposta de sucesso. Porque mostrou que, apesar de haver muito a fazer, as mentalidades estão realmente a mudar. Para melhor.

Para participar inscreva-se também em http://limparportugal.ning.com/group/limparfigueira ou envie um email para plpfigueira@gmail.com. 

Texto meu, publicado esta semana no jornal O Figueirense . Se for de outro concelho e quiser participar visite o site nacional do Limpar Portugal

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