Bach, o extraterrestre*
Bach Advent Concert from the Benedictine Monastery at Melk
* a propósito de uma entrevista Pessoal e Transmissível ao maestro Pedro Osório, onde este declara, com grande propriedade, que na história da música há vários génios sublimes como Mozart ou Beethoven. E depois há Bach, que não é deste mundo.
Silêncio
«(...) Na Índia, as técnicas de meditação desenvolveram-se para permitir ignorar o barulho que nunca se detém um segundo, sobretudo nas povoações. Nas cidades do Ocidente, pelo contrário, até mesmo aquelas que "nunca dormem", sobrevém algures entre as três e as quatro da madrugada um momento misterioso e elusivo em que o dia anterior fechou os olhos e o novo dia ainda não os abriu. Por alguns minutos faz-se um silêncio absoluto. Quem por acaso acorda nesse instante mágico chega a sentir medo.
Ora, é precisamente o medo que leva o mundo moderno a viver no barulho. Se a natureza tem horror do vácuo, o homem moderno, esse, tem horror do silêncio.
Está sempre a ouvir-se música em todos os lugares, nas casas, nas lojas, nos restaurantes, nas escolas. Não cessa a bulimia palradora da televisão e da rádio, os bips e rings dos computadores, telemóveis, i-pods. Na rua, as pessoas levam auscultadores nos ouvidos ou falam compulsivamente ao telefone. Os momentos de silêncio que ocorrem por acaso num lugar público ou numa conversa de amigos são motivo da mais extrema inquietação. O silêncio, esse esquisito intruso, é imediatamente expulso pelo barulho que, com alívio geral, recomeça. "Passou um anjo", costumava dizer-se, exprimindo assim o desconforto que o silêncio momentâneo causara. Nos transportes colectivos ou elevadores, uma certa sociabilidade urbana impõe o silêncio, e é mais isso que a forçada proximidade dos corpos que inquieta toda a gente. Antes do barulho electrónico ser portátil, já havia quem, como os ingleses, não suportasse o silêncio dos autocarros ou do metro e se pusesse a ler incessantemente, enchendo a cabeça com o som e a fúria de histórias sem importância nenhuma contadas por tolos (...)»
Paulo Varela Gomes, in Público - Suplemento P2 19 de Novembro 2011
O sentido da vida
«Só há um problema filosófico verdadeiramente sério: é o suicídio. Julgar se a vida merece ou não ser vivida, é responder a uma questão fundamental da filosofia. O resto, se o mundo tem três dimensões, se o espírito tem nove ou doze categorias, vem depois. São apenas jogos; primeiro é necessário responder. (...)
Se pergunto a mim próprio como decidir se determinada interrogação é mais premente do que outra qualquer, concluo que a resposta depende das acções a que elas incitam, ou obrigam. Nunca vi ninguém morrer pelo argumento ontológico. Galileu, que possuía uma verdade científica importante, dela abjurou com a maior das facilidades deste mundo, logo que tal verdade pôs a sua vida em perigo. Fez bem, em certo sentido. Essa verdade não valia a fogueira. Qual deles, a Terra ou o Sol, gira em redor do outro, é-nos profundamente indiferente. A bem dizer, é um assunto fútil. Em contrapartida, vejo que muitas pessoas morrem por considerarem que a vida não merece ser vivida. Outros vejo que se fazem paradoxalmente matar pelas ideias ou pelas ilusões que lhes dão uma razão de viver (o que se chama uma razão de viver é ao mesmo tempo uma excelente razão de morrer). Julgo pois que o sentido da vida é o mais premente dos assuntos ― das interrogações.»
Albert Camus in o Mito de Sisifo
Se pergunto a mim próprio como decidir se determinada interrogação é mais premente do que outra qualquer, concluo que a resposta depende das acções a que elas incitam, ou obrigam. Nunca vi ninguém morrer pelo argumento ontológico. Galileu, que possuía uma verdade científica importante, dela abjurou com a maior das facilidades deste mundo, logo que tal verdade pôs a sua vida em perigo. Fez bem, em certo sentido. Essa verdade não valia a fogueira. Qual deles, a Terra ou o Sol, gira em redor do outro, é-nos profundamente indiferente. A bem dizer, é um assunto fútil. Em contrapartida, vejo que muitas pessoas morrem por considerarem que a vida não merece ser vivida. Outros vejo que se fazem paradoxalmente matar pelas ideias ou pelas ilusões que lhes dão uma razão de viver (o que se chama uma razão de viver é ao mesmo tempo uma excelente razão de morrer). Julgo pois que o sentido da vida é o mais premente dos assuntos ― das interrogações.»
Albert Camus in o Mito de Sisifo
Satisfied. Um cheirinho do novo Tom Waits
Do último álbum "Bad as Me". Mais uma obra prima do mestre, primeiro álbum de originais em sete anos. E um vídeo fabuloso de Jesse Dylan.
Flânerie. Uma revista de fotografia. Para olhar, pensar, sentir e partilhar
O número zero desta nova revista de distribuição gratuita pode já ser descarregado aqui. E o manifesto editorial é assim:
«Somos fotógrafos - vivemos a fotografia como algo extraordinário, deliberado e consequente, que nos permite reflectir sobre o nosso papel na sociedade contemporânea.
Alimentamos diariamente a dúvida criativa que nos propulsiona no sentido de uma prática onde o pensamento divergente impera. Não recusamos o direito ao erro e abrimos, de par em par, as portas à possibilidade do acaso.
Acreditamos na fotografia como uma prática reflectida e livre e, como tal, implicitamente responsável. Sabemos que a fotografia não se dissocia da vida e por isso arriscamos projectos sensíveis, desenhados a uma escala humana que nunca desejaremos perder de vista.
Pensámos a FLÂNERIE como um projecto que espelha a nossa experiência de um mundo em plena mutação onde a materialidade dos livros co-habita agora com a desmaterialização das publicações electrónicas.
Gostamos de arte ready-made, de objets trouvés e de leitores engagés e, por isso mesmo, criamos uma revista tangente a esse território onde nascem as nossas utopias.
Este objecto coleccionável é assim tanto nosso como vosso pois sois vós, leitores, que farão esta revista deambular entre lugares de afeição ou do vosso quotidiano, tornando-se assim cúmplices na sua distribuição.»
Susana Paiva
The field will therefore remain clear
“Our human minds have not evolved in a way that will allow us ever to understand scientifically the ultimate secrets of existence. The field will therefore remain clear for those who want to invoke a deity to explain what science cannot.”
in Financial Times
in Financial Times
O Processo segundo Welles
“Say what you will, but The Trial is the best film I have ever made. One repeats oneself only when one is fatigued. Well, I wasn’t fatigued. I have never been so happy as when I made that film.”, Orson Welles (BBC, 1962)
Dhafer Youssef
Do site: «Dhafer Youssef Quartet performing at the 'Jazz Onze Plus' festival in Lausanne 28 oct 2006. Dhafer Youssef on oud and voice, Eivind Aarset on guitar, Audun Erlien on bass and Rune Arnesen on drums. Song title: 'Odd Poetry'. from Dhafer's 2006 Jazzland release 'Divine Shadows'.»
O mito palestiniano
About the Palestinians
On March 31, 1977, the Dutch newspaper Trouw published an interview with Palestine Liberation Organization executive committee member Zahir Muhsein. Here's what he said:
"The Palestinian people does not exist. The creation of a Palestinian state is only a means for continuing our struggle against the state of Israel for our Arab unity. In reality today there is no difference between Jordanians, Palestinians, Syrians and Lebanese. Only for political and tactical reasons do we speak today about the existence of a Palestinian people, since Arab national interests demand that we posit the existence of a distinct "Palestinian people" to oppose Zionism.
For tactical reasons, Jordan, which is a sovereign state with defined borders, cannot raise claims to Haifa and Jaffa, while as a Palestinian, I can undoubtedly demand Haifa, Jaffa, Beer-Sheva and Jerusalem. However, the moment we reclaim our right to all of Palestine, we will not wait even a minute to unite Palestine and Jordan."
"There has never been a land known as Palestine governed by Palestinians. Palestinians are Arabs, indistinguishable from Jordanians (another recent invention), Syrians, Iraqis, etc. Keep in mind that the Arabs control 99.9 percent of the Middle East lands. Israel represents one-tenth of one percent of the landmass. But that's too much for the Arabs. They want it all. And that is ultimately what the fighting in Israel is about today... No matter how many land concessions the Israelis make, it will never be enough". Joseph Farah, "Myths of the Middle East".
Let us hear what other Arabs have said:
"There is no such country as Palestine. 'Palestine' is a term the Zionists invented. There is no Palestine in the Bible. Our country was for centuries part of Syria. 'Palestine' is alien to us. It is the Zionists who introduced it". Auni Bey Abdul-Hadi, Syrian Arab leader to British Peel Commission, 1937 -
"There is no such thing as Palestine in history, absolutely not". Professor Philip Hitti, Arab historian, 1946
"It is common knowledge that Palestine is nothing but Southern Syria". Representant of Saudi Arabia at the United Nations, 1956.
Concerning the Holy Land, the chairman of the Syrian Delegation at the Paris Peace Conference in February 1919 stated: "The only Arab domination since the Conquest in 635 c.e. hardly lasted, as such, 22 years".
The preceding declarations by Arab politicians have been done before 1967, as they had not the slightest knowledge of the existence of any Palestinian people. How and when did they change their mind and decided that such people existed? When the State of Israel was reborn in 1948 c.e., the "Palestinians" did not exist yet, the Arabs had still not discovered that "ancient" people. They were too busy with the purpose of annihilating the new Sovereign State and did not intend to create any Palestinian entity, but only to distribute the land among the already existing Arab states. They were defeated. They attempted again to destroy Israel in 1967, and were humiliated in only six days, in which they lost the lands that they had usurped in 1948. In those 19 years of Arab occupation of Jerusalem, Judea, Samaria and the Gaza Strip, neither Jordan nor Egypt suggested to create a "Palestinian" state, since the still non-existing Palestinians would have never claimed their alleged right to have their own state... Paradoxically, during the British Mandate, it was not any Arab group but the Jews that were known as "Palestinians"!
What other Arabs declared after the Six-Day War:
"There are no differences between Jordanians, Palestinians, Syrians and Lebanese. We are all part of one nation. It is only for political reasons that we carefully underline our Palestinian identity... yes, the existence of a separate Palestinian identity serves only tactical purposes. The founding of a Palestinian state is a new tool in the continuing battle against Israel". Zuhair Muhsin, military commander of the PLO and member of the PLO Executive Council
"You do not represent Palestine as much as we do. Never forget this one point: There is no such thing as a Palestinian people, there is no Palestinian entity, there is only Syria. You are an integral part of the Syrian people, Palestine is an integral part of Syria. Therefore it is we, the Syrian authorities, who are the true representatives of the Palestinian people"., Syrian dictator Hafez Assad to the PLO leader Yassir Arafat
“Palestine and Transjordan are one.” King Abdullah, Arab League meeting in Cairo, 12 April 1948
“We are the government of Palestine, the army of Palestine and the refugees of Palestine.” Prime Minister of Jordan, Hazza’ al-Majali, 23 August 1959
“Palestine is Jordan and Jordan is Palestine; there is one people and one land, with one history and one and the same fate.” Prince Hassan, brother of King Hussein, addressing the Jordanian National Assembly, 2 February 1970
“Jordan is not just another Arab state with regard to Palestine, but rather, Jordan is Palestine and Palestine is Jordan in terms of territory, national identity, sufferings, hopes and aspirations.” Jordanian Minister of Agriculture, 24 September 1980
“The truth is that Jordan is Palestine and Palestine is Jordan.”
King Hussein 1981
Fonte
Um poema de Lewis Carroll
«This poem anticipates the Imagists by 40 years or so, and is as good an imagist poem as there is. It consists of a succession of what Ezra Pound called "luminous details". Each stanza is like a haiku and embodies a single clear image or idea. Each has 21 syllables, where the traditional haiku has 17, supposedly all that a can be said in a single breath. »
O desejo
¿Para qué quiero tu alma? -me dice-. El alma es el patrimonio de los débiles, de los héroes tullidos y las gentes enfermizas. Las almas hermosas están en los bordes de la muerte, reclinadas sobre cabelleras blanquísimas y manos macilentas. Belisa. ¡No es tu alma lo que yo deseo!, ¡sino tu blanco y mórbido cuerpo estremecido!
Federico García Lorca, “Amor de don Perlimplín con Belisa en su jardín"
Federico García Lorca, “Amor de don Perlimplín con Belisa en su jardín"
Portugal. Um retrato social. Lembrar é perceber
«Uma série, da autoria de António Barreto (e Joana Pontes), que retrata a sociedade portuguesa contemporânea. Portugal, Um Retrato Social Esta série é um retrato da sociedade e dos portugueses na atualidade, resultado de um processo de transformações recentes e muito rápidas. Uma velha nação e um antigo Estado, na origem de uma população com forte sentido de identidade, conheceram, nas últimas décadas do século XX, um período de mudança muito intensa, sobretudo em consequência de fatores externos, como a emigração, a integração europeia, a abertura económica e o turismo. A fundação da democracia teve também efeitos importantes. Estas transformações estão na origem de alterações de comportamentos e das estruturas sociais, visíveis nos diversos sectores e áreas da vida coletiva, na demografia, na saúde, na educação, no trabalho e nas relações entre as classes, as gerações e as regiões. A sociedade portuguesa é hoje aberta e plural.»
Física nos limites
«THE EDGE OF PHYSICS tells the story of our quest to understand the universe, as seen through the eyes of a traveller. It's a journey to the ends of the Earth —Lake Baikal in Siberia, the Atacama Desert in the Chilean Andes, an abandoned mine in North America, Mauna Kea in Hawaii, the subterranean lair of the Large Hadron Collider near Geneva, the barren Karoo in South Africa, the frozen frontier of Antarctica and the Hanle Valley in the Indian Himalayas —in search of the telescopes, detectors and experiments that promise to shed light on the most pressing questions in physics and cosmology today.»
A propósito do Egito, um livro sonoro de Bernard Lewis
O que é que correu mal com o mundo islâmico? Aqui: What Went Wrong? Bernard Lewis - Free Audiobook
A propósito destes dias frios, um soneto de Shakespeare
Ou de como a velha e boa Literatura encontra espaço para florescer nesta nova e boa era digital:
How like a winter hath my absence been
From thee, the pleasure of the fleeting year!
What freezings have I felt, what dark days seen!
What old December's bareness everywhere!
And yet this time remov'd was summer's time,
The teeming autumn, big with rich increase,
Bearing the wanton burthen of the prime,
Like widow'd wombs after their lords' decease:
Yet this abundant issue seem'd to me
But hope of orphans and unfather'd fruit;
For summer and his pleasures wait on thee,
And thou away, the very birds are mute;
Or if they sing, 'tis with so dull a cheer
That leaves look pale, dreading the winter's near.
How like a winter hath my absence been
From thee, the pleasure of the fleeting year!
What freezings have I felt, what dark days seen!
What old December's bareness everywhere!
And yet this time remov'd was summer's time,
The teeming autumn, big with rich increase,
Bearing the wanton burthen of the prime,
Like widow'd wombs after their lords' decease:
Yet this abundant issue seem'd to me
But hope of orphans and unfather'd fruit;
For summer and his pleasures wait on thee,
And thou away, the very birds are mute;
Or if they sing, 'tis with so dull a cheer
That leaves look pale, dreading the winter's near.
Da coerência e das convicções
Recentemente, entre a poesia de algumas campanhas políticas, tomou de novo relevo aquele grosseiro hábito de polemista que consiste em levar a mal uma criatura que ela mude de partido, uma ou mais vezes, ou que se contradiga freqüentemente. A gente inferior que usa opiniões continua a empregar esse argumento como se ele fosse depreciativo. Talvez não seja tarde para estabelecer, sobre tão delicado assunto do trato intelectual, a verdadeira atitude científica.
Se há fato estranho e inexplicável é que uma criatura de inteligência e sensibilidade se mantenha sempre sentada sobre a mesma opinião, sempre coerente consigo própria. A contínua transformação de tudo dá-se também no nosso corpo, e dá-se no nosso cérebro conseqüentemente. Como, então, senão por doença, cair e reincidir na anormalidade de querer pensar hoje a mesma coisa que se pensou ontem, quando não só o cérebro de hoje já não é o de ontem, mas nem sequer o dia de hoje é o de ontem? Ser coerente é uma doença, um atavismo, talvez; data de antepassados animais em cujo Estádio de evolução tal desgraça seria natural.
A coerência, a convicção, a certeza são, além disso, demonstrações evidentes – quantas vezes escusadas – de falta de educação. É uma falta de cortesia com os outros ser sempre o mesmo à vista deles; é maçá-los, apoquentá-los com a nossa falta de variedade.
Uma criatura de nervos modernos, de inteligência sem cortinas, de sensibilidade acordada tem a obrigação cerebral de mudar de opinião e de certeza várias vezes no mesmo dia. Deve ter não crenças religiosas, opiniões políticas, predileções literárias, mas sensações religiosas, impressões políticas, impulsos de admiração literária.
Certos estados de alma da luz, certas atitudes da paisagem têm, sobretudo quando excessivos, o direito de exigir a quem está diante deles determinadas opiniões políticas, religiosas e artísticas, aqueles que eles insinuem, e que variarão, como é de entender, consoante esse exterior varie. O homem disciplinado e culto faz da sua sensibilidade e da sua inteligência espelhos do mundo transitório: é republicano de manhã e monárquico ao crepúsculo; ateu sob um sol descoberto, e católico ultramontano a certas horas de sombra e de silêncio; e não podendo admitir senão Mallarmé àqueles momentos do anoitecer citadino em quem desabrocham as luzes, ele deve sentir todo o simbolismo uma invenção de louco quando, ante uma solidão de mar, ele não souber de mais do que da Odisséia.
Convicções profundas, só as têm as criaturas superficiais. Os que não reparam para as coisas quase que as vêem apenas para não esbarrar com elas, esses são sempre da mesma opinião, são os íntegros e os coerentes. A política e a religião gastam dessa lenha, e é por isso que ardem tão mal ante a Verdade e a Vida.
Quando é que despertaremos para a justa noção de que política, religião e vida social são apenas graus inferiores e plebeus da estética – a estética dos que ainda não podem ser? Só quando uma humanidade livre dos preconceitos de sinceridade e coerência tiver acostumado suas sensações a viverem independentemente se poderá conseguir qualquer coisa de beleza, elegância e serenidade na vida.
Se há fato estranho e inexplicável é que uma criatura de inteligência e sensibilidade se mantenha sempre sentada sobre a mesma opinião, sempre coerente consigo própria. A contínua transformação de tudo dá-se também no nosso corpo, e dá-se no nosso cérebro conseqüentemente. Como, então, senão por doença, cair e reincidir na anormalidade de querer pensar hoje a mesma coisa que se pensou ontem, quando não só o cérebro de hoje já não é o de ontem, mas nem sequer o dia de hoje é o de ontem? Ser coerente é uma doença, um atavismo, talvez; data de antepassados animais em cujo Estádio de evolução tal desgraça seria natural.
A coerência, a convicção, a certeza são, além disso, demonstrações evidentes – quantas vezes escusadas – de falta de educação. É uma falta de cortesia com os outros ser sempre o mesmo à vista deles; é maçá-los, apoquentá-los com a nossa falta de variedade.
Uma criatura de nervos modernos, de inteligência sem cortinas, de sensibilidade acordada tem a obrigação cerebral de mudar de opinião e de certeza várias vezes no mesmo dia. Deve ter não crenças religiosas, opiniões políticas, predileções literárias, mas sensações religiosas, impressões políticas, impulsos de admiração literária.
Certos estados de alma da luz, certas atitudes da paisagem têm, sobretudo quando excessivos, o direito de exigir a quem está diante deles determinadas opiniões políticas, religiosas e artísticas, aqueles que eles insinuem, e que variarão, como é de entender, consoante esse exterior varie. O homem disciplinado e culto faz da sua sensibilidade e da sua inteligência espelhos do mundo transitório: é republicano de manhã e monárquico ao crepúsculo; ateu sob um sol descoberto, e católico ultramontano a certas horas de sombra e de silêncio; e não podendo admitir senão Mallarmé àqueles momentos do anoitecer citadino em quem desabrocham as luzes, ele deve sentir todo o simbolismo uma invenção de louco quando, ante uma solidão de mar, ele não souber de mais do que da Odisséia.
Convicções profundas, só as têm as criaturas superficiais. Os que não reparam para as coisas quase que as vêem apenas para não esbarrar com elas, esses são sempre da mesma opinião, são os íntegros e os coerentes. A política e a religião gastam dessa lenha, e é por isso que ardem tão mal ante a Verdade e a Vida.
Quando é que despertaremos para a justa noção de que política, religião e vida social são apenas graus inferiores e plebeus da estética – a estética dos que ainda não podem ser? Só quando uma humanidade livre dos preconceitos de sinceridade e coerência tiver acostumado suas sensações a viverem independentemente se poderá conseguir qualquer coisa de beleza, elegância e serenidade na vida.
Fernando Pessoa in “Do contraditório como terapêutica da libertação”
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