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2014/10/13

A crise moral

«(…) Apesar desse seu diagnóstico todos os dias ouvimos dizer que a nossa sociedade é, cada vez mais, uma sociedade sem valores, como é que isso se explica?

Se isso fosse verdade, era algo de que não se falaria, isso é absurdo. Nunca vivemos em sociedades tão morais como actualmente, bem pelo contrário, temos todos os dias um novo debate moral na imprensa, fala-se da eutanásia, fala-se da bioética, vai-se falar dos cuidados a prestar aos deficientes, do modo como teremos de apoiar os desempregados, da acção humanitária e caritativa na Somália ou noutro lugar, e quando há um tsunami as pessoas dão dinheiro… como quando o houve o tsunami na Tailândia há três anos, nunca se viu a sociedade ocidental dar tanto dinheiro, havia até dinheiro a mais…”

Então o que é que explica esta dissonância, o facto de nunca termos tido, como diz, uma sociedade com tantas preocupações morais e simultaneamente a percepção de que estamos a viver uma época desprovida de valores morais?

Porque as pessoas confundem, nomeadamente os intelectuais, duas coisas. Confundem por um lado a questão da moral… o que é a moral? Em traços gerais, é o respeito pelo outro, é isto a moral, genericamente, para nós, hoje em dia, são os direitos humanos. Essas pessoas confundem a moral com a espiritualidade e não tem nada a ver. Dou-lhe já um exemplo para que isto fique claro: O luto por um ser amado. Se você perder alguém que ama, o seu filho, a sua filha a sua mulher, não interessa, isso não é uma questão moral, não é uma questão de respeito pelo outro, temos aqui toda uma configuração de problemas existenciais, o amor, evidentemente, o luto por uma pessoa amada, mas também, por exemplo, o aborrecimento, a banalidade da vida quotidiana, não são questões morais, uma boa parte da educação das crianças também não diz respeito à moral, confundem-se portanto valores morais com valores espirituais e uma coisa não tem nada a ver com a outra, você pode comportar-se como um santo, como alguém perfeitamente moral, ser respeitador dos outros, ser generoso, preocupar-se com o bem-estar e com a liberdade dos outros, pode comportar-se com alguém extraordinariamente moral e isso não o impedirá nem de envelhecer nem de perder uma criança num acidente de automóvel, nem de ver os seus velhos pais que ama tanto morrerem, isso não tem nada a ver com a moral, portanto, a verdade, e não compreendo porque é que isso não é dito, é que vivemos em sociedades hiper-morais e totalmente privadas de espiritualidade, nomeadamente entre aqueles que não são crentes, esta é a realidade. No fundo, o que são as nossas sociedades? A fórmula das nossas sociedades é a seguinte: É o mercado, mais os direitos do homem. Mas não há nisto qualquer espiritualidade. O que falta é uma espiritualidade não-religiosa. Não é a moral que nos falta, é uma espiritualidade laica, ou não-religiosa (…)»

Luc Ferry, in Pessoal e Transmissível, TSF, programa de Carlos Vaz Marques, julho de 2011; entrevista integral disponível aqui.

2014/04/17

I Trawl the Megahertz




I am telling myself the story of my life, 
stranger than song or fiction. 
We start with the joyful mysteries, 
before the appearance of ether, 
trying to capture the elusive: 
the farm where the crippled horses heal, 
the woods where autumn is reversed, 
and the longing for bliss in the arms 
of some beloved from the past. 
I said 'Your daddy loves you'. 
I said 'Your daddy loves you very much'; 
he just doesn't want to live with us anymore'.

The plane comes down behind enemy lines 
and you don't speak the language. 
A girl takes pity on you: 
she is Mother Theresa walking among the poor, 
and her eyes have attained night vision. 
In an orchard, drenched in blue light, 
she changes your bandages and soothes you. 
All day her voice is balm, 
then she lowers you into the sunset. 
Hers is the wing span of the quotidian angel, 
so her feet are sore from the walk 
to the well of human kindness, 
but she gives you a name and you grow into it. 
Whether a tramp of the low road or a prince, 
riding through Wagnerian opera, 
you learn some, if not all, of the language. 
And these are the footsteps you follow 
- the tracks of impossible love.

12 days in Paris, 
and I am awaiting for life to start. 
In the lobby of the Hotel Charlemagne 
they are hanging photographs 
of Rap artists and minor royalty. 
All cigarettes have been air-brushed from these pictures, 
making everyone a liar, 
and saving no-one from their folly. 
As proud as Lucifer, I do nothing to hide 
my kerosene dress and flint eyes 
- which one steady look, are able to restore 
to these images their carcinogenic threat. 
So what if this is largely bravado ? 
I have only 12 days in Paris 
and I'm awaiting for life to start. 
I'm setting out my stall behind a sheet of dark hair, 
and you, the hostage of crazed hormones, 
will be driven to say: 
'I am the next poet laurate 
and she is the cherry madonna, 
and all of the summer is hers.'

At first I don't notice you, 
or the colour of your hair, 
or your readiness to laugh. 
I am tying a shoelace, 
or finding the pavement fascinating 
when the comet thrills the sky. 
Ever the dull alchemist. 
I have before me all the necesary elements: 
it is their combination that eludes me. 
Forgive me ... I am sleepwalking. 
I am jangling along to some song of the moment, 
suffering it's sweetness, 
luxuriating in it's feeble aproximation of starlight. 
Meanwhile there is a real world ... 
trains are late, doctors are breaking bad news, 
but I am living in a lullaby.

You might be huddled in a doorway on the make, 
or just getting by, but I don't see it. 
You are my one shot at glory. 
Soon I will read in your expression 
warmth, encouragement, assent. 
From an acorn of interest 
I will cultivate whole forests of affection. 
I will analyse your gestures 
like centuries of scholars 
poring over Jesus'words. 
Anything that doesn't fit my narrow interpretation 
I will carelessly discard. 
For I am careless ... I'm shameless ... and - 
('Mayday, Mayday, watch the needle leave the dial') 
I am reckless, 
I am telling myself the story of my life.

Soon, I will make you a co-conspirator: 
if I am dizzy I will call it rapture; 
if I am low I will attribute it to your absence, 
noting your tidal effect upon my moods. 
Oblivious to the opinions of neighbours 
I will bark at the moon like a dog. 
In short, I'm asking to be scalded. 
It is the onset of fever.

Yesterday they took a census. 
Boasting, I said 'I live two doors down from joy.' 
Today, bewildered and sarcastic, I phone them and ask 
'Isn't it obvious? This slum is empty.'

Repeat after me: happiness is only a habit. 
I am listening to the face in the mirror 
but I don't think I believe what she's telling me. 
Her words are modern, but her eyes have been weeping 
in gardens and grottoes since the Middle Ages. 
This is the aftermath of fever. 
I cool the palms of my hands upon the bars 
of an imaginary iron gate. 
Only by an extreme act of will can I avoid 
becoming a character in a country song: 
'Lord, you gave me nothing, then took it all away.' 
These are the sorrowful mysteries, 
and I have to pay attention. 
In a chamber of my heart sits an accountant. 
He is frowning and waving red paper at me. 
I go to the window for air. 
I catch the scent of apples, 
I hunger for a taste, 
but I can't see the orchard for the rain.

There are two ways of looking at this. 
The first is to accept that you are gone, 
and to light a candle at the shrine of amnesia. 
(I could even cheat). 
In the subterranean world of anaesthetics 
sad white canoes are forever sailing downstream 
in the early hours of the morning. 
'Tell the stars I'm coming, 
make them leave a space for me; 
whether bones, or dust, 
or ashes once among them I'll be free.'
It may make a glamorous song 
but it's dark train of thought 
with too many carriages.

There is, of course, 
another way of looking at this: 
Your daddy loves you; I said 
'Your daddy loves you very much; 
he doesn't want to live with us anymore.' 
I am telling myself the story of my life.

By day and night, fancy electronic dishes 
are trained on the heavens. 
They are listening for smudged echoes 
of the moment of creation. 
They are listening for the ghost of a chance. 
They may help us make sense of who we are 
and where we came from; 
and, as a compassionate side effect, 
teach us that nothing is ever lost.

So ... I rake the sky. 
I listen hard. 
I trawl the megahertz. 
But the net isn't fine enough, 
and I miss you 
- a swan sailing between two continents, 
a ghost inmune to radar.

Still, my eyes are fixed upon 
the place I last saw you, 
your signal urgent but breaking, 
before you became cotton in a blizzard, 
a plane coming down behind enemy lines.

Paddy McAloon

2014/01/20

Beleza

B E A U T Y - dir. Rino Stefano Tagliafierro from Rino Stefano Tagliafierro on Vimeo.

A path of sighs through the emotions of life.
A tribute to the art and her disarming beauty.

CREDITS:
Director
RINO STEFANO TAGLIAFIERRO

Assistant Director
LAILA SONSINO

2nd Assistant Director
CARLOTTA BALESTRIERI

Editing - Compositing - Animation
RINO STEFANO TAGLIAFIERRO

Sound Design
ENRICO ASCOLI

Art Direction
RINO STEFANO TAGLIAFIERRO

Historiographer
GIULIANO CORTI

Time
09'49"

Year
2014

Thanks
MA&PA, ANNA, RAFFAELLA, CORRADO, VINICIO BORDIN, PAOLO RANIERI, KARMACHINA, ALBERTO MODIGNANI, AUGUSTA DESIRE GRECCHI, PAOLO BAZZANI, THOMAS MCEVOY

Video Website
http://www.rinostefanotagliafierro.com/beauty.html

2013/10/19

O Desespero da Piedade

Meu senhor, tende piedade dos que andam de bonde
E sonham no longo percurso com automóveis, apartamentos...
Mas tende piedade também dos que andam de automóvel
Quando enfrentam a cidade movediça de sonâmbulos, na direção.

Tende piedade das pequenas famílias suburbanas
E em particular dos adolescentes que se embebedam de domingos
Mas tende mais piedade ainda de dois elegantes que passam
E sem saber inventam a doutrina do pão e da guilhotina.

Tende muita piedade do mocinho franzino, três cruzes, poeta
Que só tem de seu as costeletas e a namorada pequenina
Mas tende mais piedade ainda do impávido forte colosso do esporte
E que se encaminha lutando, remando, nadando para a morte.

Tende imensa piedade dos músicos dos cafés e casas de chá
Que são virtuoses da própria tristeza e solidão
Mas tende piedade também dos que buscam silêncio
E súbito se abate sobre eles uma ária da Tosca.

Não esqueçais também em vossa piedade os pobres que enriqueceram
E para quem o suicídio ainda é a mais doce solução
Mas tende realmente piedade dos ricos que empobreceram
E tornam-se heróicos e à santa pobreza dão um ar de grandeza.

Tende infinita piedade dos vendedores de passarinhos
Que em suas alminhas claras deixam a lágrima e a incompreensão
E tende piedade também, menor embora, dos vendedores de balcão
Que amam as freguesas e saem de noite, quem sabe onde vão...

Tende piedade dos barbeiros em geral, e dos cabeleireiros
Que se efeminam por profissão mas que são humildes nas suas carícias Mas tende mais piedade ainda dos que cortam o cabelo:
Que espera, que angústia, que indigno, meu Deus!

Tende piedade dos sapateiros e caixeiros de sapataria
Que lembram madalenas arrependidas pedindo piedade pelos sapatos
Mas lembrai-vos também dos que se calçam de novo
Nada pior que um sapato apertado, Senhor Deus.

Tende piedade dos homens úteis como os dentistas
Que sofrem de utilidade e vivem para fazer sofrer
Mas tende mais piedade dos veterinários e práticos de farmácia
Que muito eles gostariam de ser médicos, Senhor.

Tende piedade dos homens públicos e em particular dos políticos
Pela sua fala fácil, olhar brilhante e segurança dos gestos de mão
Mas tende mais piedade ainda dos seus criados, próximos e parentes
Fazei, Senhor, com que deles não saiam políticos também.

E no longo capítulo das mulheres, Senhor, tende píedade das mulheres Castigai minha alma, mas tende piedade das mulheres
Enlouquecei meu espírito, mas tende piedade das mulheres
Ulcerai minha carne, mas tende piedade das mulheres!

Tende piedade da moça feia que serve na vida
De casa, comida e roupa lavada da moça bonita
Mas tende mais piedade ainda da moça bonita
Que o homem molesta - que o homem não presta, não presta, meu Deus!

Tende piedade das moças pequenas das ruas transversais
Que de apoio na vida só têm Santa Janela da Consolação
E sonham exaltadas nos quartos humildes
Os olhos perdidos e o seio na mão.

Tende piedade da mulher no primeiro coito
Onde se cria a primeira alegria da Criação
E onde se consuma a tragédia dos anjos
E onde a morte encontra a vida em desintegração.

Tende piedade da mulher no instante do parto
Onde ela é como a água explodindo em convulsão
Onde ela é como a terra vomitando cólera
Onde ela é como a lua parindo desilusão.

Tende piedade das mulheres chamadas desquitadas
Porque nelas se refaz misteriosamente a virgindade
Mas tende piedade também das mulheres casadas
Que se sacrificam e se simplificam a troco de nada.

Tende piedade, Senhor, das mulheres chamadas vagabundas
Que são desgraçadas e são exploradas e são infecundas
Mas que vendem barato muito instante de esquecimento
E em paga o homem mata com a navalha, com o fogo, com o veneno.

Tende piedade, Senhor, das primeiras namoradas
De corpo hermético e coração patético
Que saem à rua felizes mas que sempre entram desgraçada
Que se crêem vestidas mas que em verdade vivem nuas.

Tende piedade, Senhor, de todas as mulheres
Que ninguém mais merece tanto amor e amizade
Que ninguém mais deseja tanto poesia e sinceridade
Que ninguém mais precisa tanto de alegria e serenidade.

Tende infinita piedade delas, Senhor, que são puras
Que são crianças e são trágicas e são belas
Que caminham ao sopro dos ventos e que pecam
E que têm a única emoção da vida nelas.

Tende piedade delas, Senhor, que uma me disse
Ter piedade de si mesma e de sua louca mocidade
E outra, à simples emoção do amor piedoso
Delirava e se desfazia em gozos de amor de carne.

Tende piedade delas, Senhor, que dentro delas
A vida fere mais fundo e mais fecundo
E o sexo está nelas, e o mundo está nelas
E a loucura reside nesse mundo.

Tende piedade, Senhor, das santas mulheres
Dos meninos velhos, dos homens humilhados - sede enfim
Piedoso com todos, que tudo merece piedade
E se piedade vos sobrar, Senhor, tende piedade de mim!


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Marte